sexta-feira, 18 de março de 2016

Mensagem - O que Jesus está tentando nos dizer?

Leitura bíblica: Lucas 15
O capítulo 15 do Evangelho segundo Lucas é famoso por conter as conhecidas parábolas dos perdidos: a ovelha perdida, a moeda perdida e o filho perdido. A maioria de nós conhece bem essas histórias, mas será que realmente entendemos o que Jesus está tentando nos dizer? O texto começa assim: “Certa ocasião, muitos cobradores de impostos e outras pessoas de má fama chegaram perto de Jesus para o ouvir. Os fariseus e os mestres da Lei criticavam Jesus dizendo: Este homem se mistura  com gente de má fama e toma refeições com eles” (Lc 15.1-2). E então Jesus conta as parábolas.

Convido para refletir mais especificamente sobre a terceira delas, mais conhecida como a parábola do filho pródigo, também chamada por vezes de parábola do Pai amoroso. A história vocês conhecem: o filho mais novo pede sua parte da herança ao pai e sai pelo mundo esbanjando o dinheiro em uma vida desregrada e imoral. Quando não tem mais nem mesmo a lavagem dos porcos para se alimentar, resolve voltar para a casa de seu pai e pedir que ele o aceite de volta na condição de empregado. Porém, surpreendentemente, o pai o recebe de volta na condição de filho e faz uma festa para comemorar o seu retorno. Mas quando o filho mais velho fica sabendo disso, não gosta nada da ideia. O v.28 diz assim: “O filho mais velho ficou zangado e não quis entrar. Então o pai veio para fora e insistiu com ele para que entrasse”. Esse versículo é a reprodução exata do que acontece no início do capítulo: o filho mais velho fica descontente porque o pai recebeu o filho mais novo de volta e o pai sai para insistir com o filho mais velho para que ele entre, ou seja, os fariseus e os mestres da Lei ficam descontentes porque Jesus estava recebendo os cobradores de impostos e as pessoas de má fama e Jesus começa a contar as parábolas.

Como nós costumamos olhar para essa parábola? E como costumamos aplica-la à nossa realidade? O mais comum de acontecer é ficar só na parte do filho mais novo. Nos pomos a procurar os filhos mais novos ao nosso redor, identificamos os cobradores de impostos e pessoas de má fama de nossa época e dizemos: “Eles precisam cair em si, se arrepender dos seus pecadores e voltar para a casa do pai”. Claro, porque o filho mais novo sempre são os outros, nunca somos nós. Nós estamos na casa do Pai, afinal de contas, nós estamos na igreja!!!

Mas têm aqueles que vão um pouquinho mais longe na reflexão da parábola e se dão por conta de que tem um filho mais velho na história. Se dão por conta de que, quando filhos mais novos realmente caem em si e voltam para a casa do pai, não faltam filhos mais velhos que se negam a recebe-los de volta. Afinal de contas, o que vão pensar da nossa igreja se esse tipo de pessoas começarem a frequentar o nosso ambiente!!! E lá vamos nós de novo, nos pondo a procurar os filhos mais velhos ao nosso redor e identificar os fariseus e os mestres da Lei de nossa época.

E divagando desse jeito em cima da parábola, daqui a pouco lá estamos nós imaginando: “Será que eu sou o filho mais novo ou filho mais velho?”. Gastamos tanto tempo investigando a parábola em busca de lições de moral para os outros e até para nós mesmos que esquecemos de parar e olhar o que o Pai está fazendo na parábola.

O Pai corre ao encontro do filho mais novo para recebê-lo de volta em sua casa e faz uma festa para comemorar o seu retorno. O Pai sai de dentro de casa e vai ao encontro do filho mais velho para insistir com ele para que entre também para a festa. Afinal de contas, o clima de festa por causa da presença do filho mais velho já durava tanto tempo, é o que o Pai diz: “você está sempre comigo, e tudo o que é meu é seu” (v. 31), por que sair agora que chegou mais gente pra festa?

Chegou a hora de pararmos de olhar para o lado, procurando defeitos e virtudes nos outros e em nós mesmos, e olharmos para Deus que, em Jesus, pagou na cruz pelos nossos defeitos e em troca nos deu as suas virtudes. Ele é o pastor que saiu à procura da ovelha perdida e que nos colocou em seus ombros para nos levar de volta à casa do Pai. Ele é a mulher que virou a casa de cabeça para baixo em busca da moeda perdida e que fez uma festa quando finalmente nos encontrou de novo. Ele é o Pai amoroso que, mesmo depois de termos tripudiado em cima dos bens que, a preço de morte de cruz, ele nos concedeu, ele não acha humilhante demais correr na nossa direção e nos receber de volta. Ele é o Pai paciente que não se importa de sair sempre de novo e insistir conosco para que entremos. Todas essas imagens Jesus usa para nos dizer uma coisa: “Para de olhar para o lado e olha pra mim que eu te quero aqui comigo!


Oremos: Pai amoroso, te agradecemos pelo tanto que fizeste para nos ter ao teu lado. Mantêm-nos contigo, pois, no que depender de nós, nos desviaremos sempre de novo. E, mesmo que sejamos indignos para tal, usa-nos como instrumentos para trazer outros perdidos de volta à casa paterna. Em nome do Bom Pastor Jesus. Amém!

Charles Samuel Voigt Ledebuhr
Teologando Seminário Concórdia/ULBRA

quarta-feira, 9 de março de 2016

Reflexão - O Filho do Homem e o Cordeiro de Deus: um estudo bíblico no livro de Apocalipse

O livro de Apocalipse geralmente apresenta Cristo, o Senhor, tanto como o Filho do Homem quanto como o Cordeiro de Deus. Quando ele aparece como o Filho do Homem é assustador olhar para ele, pois, como tal, ele é o juiz de toda a raça humana em nome de Deus, o Pai (Ap 19.11-16; cf. Jo 5.22-23, 27). Quando ele aparece desse jeito, isso inflige medo e terror nos corações de todo o povo (Ap 6.12-17), até mesmo momentaneamente nos corações do próprio povo de Deus. Ele tem autoridade para realizar o julgamento de Deus como Filho do Homem porque, como Cordeiro de Deus, ele sofreu o julgamento de Deus em lugar da raça humana (Ap 5.6-10; 6.15-17; 19.13-15). Quando, entretanto, ele aparece como o Cordeiro, é para o seu próprio povo somente, e então não há medo. O povo de Deus pode ficar de pé diante dele em seu amor como os lavados em seu sangue (Ap 7.9-17). Não há para eles medo, nem incerteza, somente o amor que lhes assegura que eles são o povo de Deus (Ap 19.5-9). Na aparição final de Jesus Cristo em Apocalipse, a grande visão de sua segunda vinda como o Filho do Homem no julgamento (Ap 19.11-21), o povo de Deus não deve temer. Ele não está vindo como seu juiz, mas como seu libertador. Isso é demonstrado na primeira visão da segunda vinda de Cristo em Apocalipse 14, onde as duas figuras, o Filho do Homem e o Cordeiro de Deus, se misturam. Enquanto ele vem como o Filho do Homem para julgar (Ap 14.14-20), é para o povo de Deus vê-lo como o Cordeiro (Ap 14.1-5). Na sua vinda eles o verão como o Filho do Homem e vão (momentaneamente) ficar assustados, mas eles devem olhar para ele não como juiz, mas como o Cordeiro, o Salvador. Todo medo então desaparecerá como ele diz, “Venham, vocês benditos, para o reino que foi preparado para vocês” (Ap 14.9-13; 19.6-8; 22.14-15; cf. Mt 25.32-34).

Louis Brighton, In: Revelation - Concordia Commentary, St. Louis: Concordia Publishing House, 1999.
Tradução: Charles Samuel Voigt Ledebuhr

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Mensagem - Algumas luzes se apagam...

Isaías 60.1-6
“Levante-se, Jerusalém! Que o seu rosto brilhe de alegria, pois já chegou a sua luz! A glória do Senhor está brilhando sobre você. A terra está coberta de escuridão, os povos vivem nas trevas, mas a luz do SENHOR está brilhando sobre você; sobre você aparece a glória de Deus. Atraídos pela luz, Jerusalém, os povos do mundo virão; o brilho do seu novo dia fará com que os reis cheguem até você. Jerusalém, olhe em redor e veja o que está acontecendo! Os seus filhos estão voltando, eles estão chegando! Os seus filhos vêm de longe, as suas filhas vem nos braços das mães. Quando você vir isso, ficará radiante de alegria; cheio de emoção, o seu coração baterá forte. Os povos que vivem no outro lado do mar virão, trazendo todas as suas riquezas para você. Os povos de Midiã e de Efa chegarão com enormes caravanas de camelos; virá também o povo de Sabá, trazendo ouro e incenso. Todos eles anunciarão as grandes coisas que o SENHOR fez.”











Hoje o dia amanheceu mais escuro. No dia de ontem, foram retirados os enfeites de Natal. Depois de mais de um mês, a noite passada foi uma noite sem as tradicionais luzes de Natal piscando e iluminando as casas, que permanecerão escuras durante as madrugadas até o próximo Natal.

Mas o profeta Isaías não fala de luzes que se apagam, e sim de uma luz que se acende. A terra estava coberta de escuridão. O mundo procurava desesperadamente uma solução para o vazio que permanece nos corações humanos desde que a relação com o seu Criador foi rompida. As pessoas procuravam de todos os modos religarem-se ao seu Criador, mas a busca vinha sendo inútil. Não conseguiam ver uma luz no fim do túnel. Então a luz brilhou forte em Jerusalém. Era “a luz verdadeira que veio ao mundo e ilumina todas as pessoas” (Jo 1.9). “A luz brilha na escuridão e a escuridão não conseguiu apaga-la” (Jo 1.5).

O dia 6 de janeiro encerrou o ciclo do Natal e inaugurou o ciclo da Epifania, ou seja, da revelação. Em alguns países é no dia 6 de janeiro que se comemora o Natal e trocam-se presentes, e não no dia 25 de dezembro. Ele é chamado de “o Natal dos gentios”, pois nesse dia lembramos que sábios vindos de nações distantes, literalmente seguindo uma luz, uma estrela que os guiou, visitaram e adoraram o menino-Deus (Mt 2.1-12). Com isso, lembramos que Jesus não veio apenas aos que pertenciam ao povo de uma nação chamada Israel, mas ele veio para todas as tribos, povos, raças e nações.

As luzes dos pisca-piscas desse Natal que passou podem até ter se apagado, mas aquela luz que se acendeu no primeiro Natal continua brilhando até hoje. Alguns dos primeiros que viram seu brilho foram os pastores das campinas de Belém, a quem os anjos indicaram o caminho que os levaria até a luz-Jesus-Cristo (Lc 2.8-20). Não demorou muito e essa luz rompeu fronteiras e se manifestou aos magos estrangeiros que foram guiados até a luz-Jesus-Cristo pela estrela. Depois disso, a luz continuou rompendo as fronteiras do tempo e do espaço, levando luz aos que estavam na escuridão, religando a Deus os que estavam afastados dele. Assim, essa luz chegou até os dias de hoje, chegou até nós, que também fomos resgatados das trevas e trazidos para a luz.

Mas ainda existem no mundo muitos que permanecem na escuridão. A esses, Jesus continua se revelando. “Todos [aqueles que já foram resgatados das trevas para a luz] anunciarão as grandes coisas que o SENHOR fez” por meio de Jesus Cristo (Is 60.6). E assim outros continuarão sendo acrescentados pelo Senhor ao número dos que creem nele e o recebem, e a estes ele dá o direito de se tornarem filhos de Deus (At 2.47; Jo 1.12).

Na noite que virá, as luzes natalinas artificiais continuarão apagadas, bem como na seguinte e em todas as noites do ano até que se aproxime novamente o Natal. Mas elas não vão fazer falta, porque a luz natalina natural, que é Jesus Cristo, continuará brilhando cada vez mais forte e se manifestando a cada vez mais gente. “O véu que separava já não separa mais. A luz que outrora apagada agora brilha e cada dia brilha mais.”

Oremos: Querido Salvador, agradecemos-te porque te revelaste a nós quando ainda estávamos em trevas e nos conduziste à tua maravilhosa luz. Por isso pedimos-te: Venha o teu reino! Continua ao lado de cada um dos que já creem em ti e continua revelando a tua luz aos que ainda não creem para que sejam por ti salvos. Em teu nome. Amém!


Charles Samuel Voigt Ledebuhr

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Mensagem - Retrospectiva e planejamento


Texto base: Salmo 90.1-2
“Senhor, tu tens sido o nosso refúgio. Antes de formares os montes e de começares a criar a terra e o Universo, tu és Deus eternamente, no passado, no presente e no futuro.”

Chegamos ao último dia de mais um ano. Nessa época é inevitável olhar para trás e fazer um balanço do ano que passou e, ao mesmo tempo, olhar para frente e fazer o planejamento do ano que se inicia. Qual é o sentimento que nos invade ao fazermos isso?

A maioria das emissoras de TV vem transmitindo nos últimos dias as suas retrospectivas de 2015. Uma delas, em sua chamada para a atração, resume o ano que passou falando da crise imigratória, os ataques terroristas, as tragédias naturais e aquelas causadas pelo homem. Outra emissora faz chamadas mostrando cenas de desastres ocorridos no último ano. A cena é pausada um momento antes de o desastre acontecer e então o comandante da atração usa a frase: “A gente pode parar uma imagem, mas não mudar a história”. Então a imagem continua e o desastre acontece. Ainda outra emissora anuncia a atração com a frase reflexiva: “2015: Um ano para ser lembrado, um ano para ser esquecido”.

E se nós fizéssemos a retrospectiva do nosso 2015, a que conclusão chegaríamos? 2015 é um ano para ser lembrado ou um ano para ser esquecido? Talvez alguns acontecimentos tristes nos venham à mente e nos levem a querer esquecer o ano que passou: algum plano frustrado, um acidente, um relacionamento dissolvido ou a morte de alguém querido. Talvez essas coisas tristes até ofusquem as alegrias que também estiveram presentes no ano que passou e nos levem a preferir esquecer.

E ao olharmos para 2016, como olhamos? Com esperança, entusiasmo e alegria? Ou com apreensão, temor e medo? Tenha sido 2015 mais repleto de alegrias ou de tristezas, pelo menos sabemos como ele foi, mas 2016 ainda é, para nós, o desconhecido. Não sabemos o que nos aguarda nele.

Esse momento do ano, marcado por retrospectiva e planejamento, facilmente nos coloca na fronteira entre a dor do passado e o medo do futuro. Somos, na verdade, vítimas do tempo. E como não podemos fugir desse tempo, vivendo condenados à fronteira entre o passado e o futuro, não há nada nesse tempo que possa nos ajudar. A ajuda precisa vir de algo que esteja acima do tempo e esse é Deus.

Moisés afirma a respeito de Deus, no Salmo 90: “tu és Deus eternamente, no passado, no presente e no futuro”. Deus não está confinado ao tempo como nós estamos. Ele é eterno. A dimensão de eternidade é algo que sequer conseguimos compreender. No nosso entendimento, as coisas precisam ter um começo, um meio e um fim. Até conseguimos conceber a ideia de algo que não termina, pois vivemos na esperança da nossa vida eterna, ou seja, uma vida que não terá fim. Mas, ainda assim, tivemos um começo e não conseguimos conceber a ideia de algo que nunca começou e nunca vai terminar, simplesmente é eterno. Deus é eterno.

Mas para salvar a nós que estávamos condenados no tempo, o próprio Deus eterno se submeteu ao tempo. Se já era inconcebível pensar num Deus eterno que nunca teve início e nunca terá um fim, por amor a nós Deus fez algo ainda mais inconcebível: Aquele que era eterno escolheu ter um começo no tempo como ser humano. Quando chegou o tempo certo, ele veio como filho de mãe humana para libertar os que estavam condenados no tempo. O Verbo se fez carne e Deus viveu entre nós como ser humano, Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. O Deus eterno resolveu tomar parte na nossa finitude e morreu como nós deveríamos morrer e em troca disso nos deu a Sua eternidade, nos deu a certeza de uma vida eterna.

Por isso, não importa o que aconteça ou o que virá. Deus conhece cada um dos passos que nós demos ou que ainda daremos. Sejam momentos de dor e depressão ou de alegria e felicidade, todos os momentos da nossa vida estão nas mãos do Deus que se fez homem por nós. A retrospectiva do passado pode nos fazer sofrer e a projeção do futuro pode nos assustar, mas tem uma coisa que é certa: o presente. Pare para pensar só um instante: se o nosso presente é Cristo não importa o que acontecer, pois tudo está nas mãos dele. Ele é o nosso presente certo porque Ele apaga as nossas dores do passado e nos garante sua companhia no futuro.

Com Cristo do nosso lado, podemos fazer a nossa retrospectiva 2015 e o nosso planejamento 2016 e ainda comemorar o ano novo na melhor das companhias: Cristo, o Deus eterno que se faz presente no tempo por amor a nós.

Oremos ao nosso Deus fazendo uso das próprias palavras de Moisés no Salmo 90:

Senhor, tu tens sido o nosso refúgio. Alimenta-nos de manhã com o teu amor, até ficarmos satisfeitos, para que cantemos e nos alegremos a vida inteira. Que os teus servos vejam as grandes coisas que fazes! E que os nossos descendentes vejam o teu glorioso poder! Derrama sobre nós as tuas bênçãos, ó Senhor, nosso Deus! Dá-nos sucesso em tudo o que fizermos; sim, dá-nos sucesso em tudo. Amém. (Salmo 90.1, 14, 16, 17)

Charles Samuel Voigt Ledebuhr

domingo, 13 de dezembro de 2015

Reflexão: Colocando São Nicolau de volta no Natal – o verdadeiro homem por trás do Papai Noel

Dr. Gene Edward Veith

O Papai Noel tornou-se o santo padroeiro de um Natal secularizado. Muitos cristãos estão tentando equilibrar o que há de místico sobre o Papai Noel com o verdadeiro significado do Natal centralizado em Cristo. Algumas famílias estão tentando eliminar o Papai Noel completamente, mas, mesmo isso, tem se demonstrado uma tarefa complicada. (Como uma criança disse certa vez aos avós: “Meus pais não acreditam em Papai Noel, mas eu sim!”).
E, no entanto, não importa o quanto as pessoas tentem, o Natal tem resistido à secularização. O próprio Natal pressupõe um nascimento (que é o que significa a palavra “natal”), o que nos leva a pensar no nascimento de Jesus[1]. E mesmo Papai Noel é uma versão fantástica de São Nicolau, que realmente é um santo.
De fato, na igreja católica romana e na igreja ortodoxa oriental, São Nicolau é um dos mais populares santos venerados por eles. Ele é o santo padroeiro das crianças, dos estudantes, dos comerciantes, dos marinheiros, (por mais estranho que pareça) dos ladrões e de toda a nação da Grécia. Histórias sobre os santos são chamadas “lendas”. Por elas não serem necessariamente historicamente precisas atribuiu-se um sentido mais amplo para as coisas que são “lendárias”. Ainda assim, lendas muitas vezes contém um fundo de verdade, se não na história, então no seu significado.
Nós sabemos que São Nicolau viveu de 270 d.C. a 343 d.C. e foi bispo de Mira, na atual Turquia. As lendas nos falam sobre como ele dava presentes às crianças e como ele pagou dotes para jovens mulheres a fim de que elas pudessem casar, deixando cair ouro pela chaminé ou jogando dinheiro pelas janelas de modo que ele aparecesse nas meias penduradas para secar em frente à lareira.
Outra história, porém, conecta São Nicolau a um importante evento histórico. Diz-se que ele compareceu ao Concílio de Nicéia, a conferência de bispos que se reuniu para examinar as reivindicações de Ario, que ensinava que Cristo não era Deus, mas apenas um homem. Os bispos reafirmaram a verdade bíblica de que Cristo é Deus e homem, usando uma linguagem que é usada ainda hoje quando confessamos o Credo Niceno.
Supostamente, o bispo Nicolau de Mira ficou tão irritado quando ouviu Ario derrubando a divindade de Cristo que ele foi para cima do herege e lhe deu um tapa no rosto. Algumas descrições apresentam o animado velho São Nicolau acertando Ario com o punho!
O imperador Constantino (que simpatizava com os arianos) estava presente e pediu que jogassem Nicolau na prisão. Seus colegas bispos, chocados com a reação inapropriada, votaram por despojá-lo de seu ofício e tiraram sua estola de bispo.
Naquela noite, de acordo com a lenda, como Nicolau estivesse definhando em sua cela, ele teve uma visão de Jesus e Maria. O Senhor lhe perguntou: "Por que você está aqui?" Nicolau respondeu: "Porque eu te amo." Jesus deu-lhe um livro feito de ouro dos Evangelhos e Maria deu-lhe uma nova estola de bispo. No dia seguinte, os outros bispos acordaram com uma convicção de que deviam restaurar Nicolau ao seu ofício. Foi o que fizeram.
Bem, alguma coisa disso realmente aconteceu? Provavelmente não! Os relatos contemporâneos do concílio não mencionam qualquer incidente desse tipo. Ainda assim, Nicolau pode ter estado no Concílio de Nicéia. Todos os bispos da Igreja estavam convidados, e Nicéia e Mira ficavam no mesmo país. Alguns relatos primitivos dizem que Nicolau de Mira estava presente. A lista de participantes, porém, não o inclui. (Melhor dizendo, das onze cópias preservadas, apenas três incluem, mas essas poderiam ser adições posteriores).
Não temos como verificar se Nicolau realmente acertou Ario, mas essa é uma tradição tão razoável quanto a de ele colocar ouro nas meias de jovens garotas. E com certeza muito mais razoável do que a de ele morar no Polo Norte com elfos e renas voadoras. O significado da lenda, contudo, é certamente verdade: São Nicolau confessou a Cristo.
O problema com o culto aos santos, como praticado historicamente, é que os santos se sobressaiam a Cristo. Marinheiros rezavam a São Nicolau para salvá-los de uma tempestade, ao invés de apelar para Aquele que acalmou o mar da Galileia. Da mesma forma, as crianças pedem ao Papai Noel que lhes traga presentes, em vez de pedir ao Doador de toda dádiva boa e perfeita. Santos de verdade, entretanto, não apontam para si mesmos, mas para Cristo. Não foram as suas virtudes sobrenaturais que fizeram deles santos. Antes, foi a sua fé em Cristo.
São Nicolau sabia que Cristo é “verdadeiro Deus do verdadeiro Deus”, que “foi feito homem”, e ele também sabia que Cristo era “por ele”. São Nicolau pode ou não ter estado em uma prisão literal. Mas ele certamente conheceu a prisão que é o pecado. Não obstante, Cristo veio a ele com seu perdão, trazendo-lhe a Sua Palavra e Seu chamamento.
Podemos devolver a Nicolau, o homem por trás do personagem que se tornou o Papai Noel, o papel que corresponde ao verdadeiro santo (ou seja, ser um exemplo de fé[2])? Se podemos, então a melhor forma de fazê-lo provavelmente seja construindo sobre o que está mais associado a ele: o dar presentes. Podemos explicar aos nossos filhos que eles recebem presentes no Natal porque, nas palavras do Catecismo Menor, Deus “me deu corpo e alma... vestes, calçados, comida e bebida, casa e lar... e todos os bens”. Acima de tudo, Ele nos deu a salvação, não com base em se temos sido travessos ou comportados, mas como um presente gratuito. Isto é, Ele nos deu Jesus.
Nós também podemos aproveitar a oportunidade para ensinar a doutrina da vocação. Deus te dá Seus presentes através do que outras pessoas, tais como teus pais e teu pastor, te dão. Assim, Deus é Aquele que está te dando brinquedos e presentes na manhã de Natal por meio de todas essas pessoas que você ama.
Podemos dizer aos nossos filhos que Deus deu o presente Jesus ao Papai Noel (ou seja, São Nicolau) há muito tempo. Ele se tornou um pastor que ajudou as crianças e, quando ele batizava, dava-lhes também o presente Jesus. É por isso que o Natal tem Papai Noel e presentes. Isso, na verdade, é tudo a respeito de Jesus!
Fonte: Igreja Luterana – Sínodo de Missouri




[1] Em inglês, essa referência é ainda mais forte, pois “Natal” em inglês é “Christmas”, contendo em si própria a palavra “Christ”, ou seja, “Cristo”. Algumas lojas até tentam driblar essa referência ao Natal cristão referindo-se a ele como “holiday” (feriado), porém essa palavra é uma contração de “holy day” (dia santo), contendo em si uma confissão de que este dia é santo.
[2] Nas palavras das Confissões Luteranas, “Do culto aos santos os nossos ensinam que devemos lembrar-nos deles, para fortalecer a nossa fé ao vermos como receberam graça e foram ajudados pela fé; e, além disso, a fim de que tomemos exemplo de suas obras, cada qual de acordo com sua vocação...”. Confissão de Augsburgo, Artigo XXI: Do Culto aos Santos. Hinário Luterano. Porto Alegre: Editora Concórdia, 2001. p.71.

Tradução: Charles Samuel Voigt Ledebuhr (com adaptações)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

XLIII Olimpíada Esportiva DICANPI

A XLIII Olimpíada Esportiva do DICANPI se realizou 28 e 29 de novembro de 2015, sediado pela C.E.L. Farroupilha de Piratini. Foi um agradável final de semana de confraternização dos irmãos na fé com atividades esportivas. Comentários nas redes sociais transparecem a boa organização como principal ponto positivo dessa edição do evento.


Segue a lista dos vencedores:


CORRIDAS FEMININO
100m: 
1°lugar: Eduarda - JULUCA (São João de Canguçu)
2°lugar: Bianca - JULUCA


1000m: 
1° lugar: Lirian - Florida III  
2°lugar: Eduarda - JULUCA


CORRIDAS MASCULINO

100m:
1° lugar: Lucas - JULUCA 
2° lugar: Josias - JULUSOL (Redentor da Solidez)


1000m 
1° lugar: Danilo - Florida I
2°lugar: Elias - JULUSOL

SALTOS FEMININO
Altura
1° lugar: Eduarda - JULUCA
2° lugar: Letícia - Potreiro Grande

Distância
1° lugar: Eduarda - JULUCA
2° lugar: Luíza - Piratini

SALTOS FEMININO
Altura
1° lugar: Athos - JULUPA (São Mateus do Pantanoso)
2° lugar: Samuel - JULUSOL

Distância
1° lugar: Maurício - Piratini
2° lugar: Diego - Faxinal

XADREZ FEMININO 

1° lugar: Paula Daiana - JELSP (São Pedro do Canguçu Velho)
2° lugar: Caroline - JULUCA


XADREZ MASCULINO 
1° lugar: Nairton - JELSP
2° lugar: Henrique - JULUCA


MOINHO FEMININO 
1° lugar: Tarine - JULUSOL
2° lugar: Iara - JULUPA


MOINHO MASCULINO 
1° lugar: Samuel - JULUSOL
2° lugar: Marcos - JULUMAR (Redenção de Manoel do Rego)


DAMAS FEMININO 
1° lugar: Cátia - JULUSOL
2° lugar: Andriele - JULUSP (São Paulo de Capão Bonito)


DAMAS MASCULINO 
1° lugar: Willian - JULULP
2° lugar: Théo - Piratini


KNIPS FEMININO 
1° lugar: Cátia e Kamila - JULUSOL
2° lugar: Maria e Nara - JULUMAR


KNIPS MASCULINO 
1° lugar: Rogério e Marcos - JULUMAR
2° lugar: Marcos e Jonas - Potreiro Grande


PING PONG FEMININO
1° lugar: JULUCA  
2° lugar: JULUMAR


PING PONG MASCULINO
1° lugar: JULUMAR
2° lugar: JULUCA


VÔLEI (misto)
1° lugar: JULUCA 
2° lugar: JULUPA

FUTSAL 

Feminino
Goleadora: Tarine - JULUSOL
Goleira Menos Vazada: Laís - JULUCA
1° lugar: Potreiro Grande 
2° lugar: JULUCA

Masculino

Goleador: Maiquel - Potreiro Grande
Goleiro Menos Vazado: Dionis - JELSP
1° lugar: Potreiro Grande 
2° lugar: Canguçu Velho


Parabéns a todos os vencedores!

domingo, 6 de dezembro de 2015

Reflexão - Plumas e Palavras

Gostaria de contar uma história que aconteceu quando eu ainda morava em Canguçu.  Eu estava em casa preparando uma atividade para desenvolver na escola dominical da Congregação Concórdia. Nesta atividade falaríamos sobre a Arca de Noé. E uma das práticas seria colar penas sobre um desenho grande, uma pomba desenhada sobre uma cartolina. Bem, estava tudo preparado para a atividade, mas faltavam as tais penas. Então, lembrei que tínhamos alguns travesseiros com penas de pato e disse para minha esposa: vou abrir um travesseiro e tirar algumas penas. Ela não gostou da ideia e respondeu: não faça isso! Perguntei: Por que? Respondeu: por causa das plumas. Plumas?! Sim plumas, elas são leves como o ar e quando você abrir o travesseiro elas sairão e você não conseguirá controlá-las. Eu, teimoso como todo bom pomerano, resolvi não seguir o conselho. Quando ela não estava em casa abri o travesseiro, assim, devagarzinho. Quando percebi que as tais plumas começaram a sair, como minha esposa havia dito que aconteceria, mais do que ligeiro apertei o travesseiro para segurá-las e... as plumas! Ah! As tais plumas! Até hoje alguma deve estar flutuando por lá. 
Mas você deve estar se perguntando por que estou falando de plumas. Falo de plumas porque quero falar de palavras. Assim como as plumas são as palavras. As palavras também são leves como o ar. Flutuam, não conseguimos controlá-las, estão por aí o tempo todo. Ditas, escritas. Das mais diversas formas, pessoalmente, virtualmente.  E um exercício que faço, por vezes, é parar para escutar as palavras que “flutuam”. Não aquelas preparadas previamente, mas aquelas ditas sem muitas preocupações pelas pessoas que me cercam em meu dia a dia. Tente você fazer isto. É bem legal! Você verá quantos planos para o futuro. Quantas viagens a serem realizadas. Quantos carros, quantas casas a serem compradas. Não que as pessoas não as tenham, mas é preciso melhorar!  Afinal de contas, é preciso melhorar em tudo, sempre![1] Você ouvirá também muitos lamentos. Lamentos pelo que passou. Perdas de emprego, bens, saúde, namorado, namorada, amigos. Enfim. Mas o que ouvimos pouco é a respeito do presente, aqui, agora[2].   Por horas parece até que este tempo nem existe como afirma um escritor francês chamado Ferry:
Imaginamos que seríamos muito mais felizes se tivéssemos isso ou aquilo, sapatos novos ou um computador turbinado, uma outra casa, outras férias, outros amigos... Mas de tanto lamentar o passado ou ter esperança no futuro, acabamos por perder a única vida que vale ser vivida, a que depende do aqui e do agora, e que não sabemos amar como ela certamente merece[3].

Contudo as palavras expressam ainda outro aspecto. Este bastante sério e preocupante. Elas expressam, muito frequentemente, um grande vazio, uma angústia com a qual é difícil de conviver, uma angústia que leva muitas pessoas a se sentirem infelizes, e que buscam socorro principalmente nos medicamentos e em algo transcendente.
Mas, por favor, me permitam voltar às plumas e às palavras. Quero agora falar de uma palavra em especial. Costuma ser escrita com a inicial maiúscula. A Palavra[4]. Esta também “flutua”, nunca sabemos aonde ela irá “pousar” (Jo 3.8). Esta Palavra é aquela pela qual acreditamos que tudo tenha sido criado (Jo 1.3). Todo o universo, não importa o quão grande ele seja. Tudo aquilo que conhecemos. Também a vida em sua essência, não importa o quão micro ela se manifeste. Esta Palavra esteve presente em forma humana em Jesus Cristo que morreu e ressuscitou nos mostrando assim que ela é poderosa a ponto de vencer a própria morte. Esta Palavra pode preencher o vazio[5] sentido pelas pessoas. Onde ela pousa dá consolo em relação ao passado, dá sentido para o futuro e dá alegria no presente. 
Assim como plumas somos nós também. Estamos presentes, visíveis e no instante seguinte não somos mais vistos. Logo somos levados embora. Porém sabemos para aonde vamos. Guiados pela Palavra vamos de volta para a nossa verdadeira terra natal. A terra da qual somos frutos. A terra celestial.



[1] CERTEAU, Michel afirma que somos induzidos à ilusão. Levados a buscar sempre o novo e logo a seguir o renovo sem tempo para apreciar aquilo que de fato temos. [1] CERTEAU, Michel; A Cultura no Plural; 7º ed; Campinas; São Paulo; 2012.
[2]HANNAH, Arenth, afirma que o ser humano vive entre a angustia e os planos para o futuro, esquecendo-se do presente.  HANNAH Arendth; Entre o passado e futuro; Perspectiva S.A.;  6° ed; São Paulo;
[3] FERRY, Luc. Capítulo 1: O que é a filosofia? In: Aprender a Viver – Filosofia para os Novos Tempos. Rio de Janeiro: Editora Objetiva Ltda., 2006.
[4] “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”; Jo 1:1 ARA.
[5] Lipovetky afirma que vivemos em uma era vazia, sob o individualismo, em uma busca constante e sem fim. LIPOVETSKY, Gilles. A Era do Vazio; Ensaio sobre o Individualismo Contemporâneo; Barueri; São Paulo; 2005.

Daison Mülling Neutzling
Teologando do Seminário Concórdia e da ULBRA